Amor pela capacidade de estar só
“É preciso amar a solidão, pois só nela amadurecem as coisas profundas.”
Rainer Maria Rilke
Na prática clínica não só jovens, como adultos, procuram ajuda devido a um sofrimento persistente que apesar da companhia do parceiro não evita a angústia da solidão, acarretando o sofrimento por um parceiro incapaz de proporcionar uma verdadeira satisfação, como se isso não chegasse, desenha-se no horizonte um futuro sem saída, um luto de abandono.
Não basta ter uma parceria a dois, há que ter um pensamento adequado sobre uma vida em que o outro habita na minha existência. Tais questões abordadas nas sessões não consta somente na viagem do tempo passado mas também numa reconstrução, assente num trabalho capaz de um acesso à capacidade de estar só, capacidade de estar só sem nos perdermos, solidão que não é medo de abandono, de uma confrontação temerosa do vazio que não se preenche, antes pelo contrario, com a intervenção do psicólogo o paciente confronta-se com a verdade em que esteve dependente do objeto externo (parceiro ou parceira), com as temerosas dificuldades em estar só, pois o seu mundo interno é povoado de maus objetos e a solidão atiça-os na nossa imaginação.
Melanie Klein afirma: “o sofrimento da solidão segundo as experiências dos pacientes; verbalizam o medo da solidão, do isolamento, ao sentimento de não pertença, e não tanto no reconhecimento de se estar só, ou de estar em diálogo consigo próprio”.
Quando o processo é bem resolvido, surge o que chamamos de intimidade com alguém significativo, objeto de amor, possibilitando o silencio, a cada um estar consigo mesmo, Simone Weil defende essa autonomia entre os amantes, “só quem não depende do outro pode realmente vê-lo”.
“Somos tanto mais livres quanto mais agimos segundo a razão, e menos segundo as paixões, pois quem depende excessivamente do outro para existir efetivamente esta sob o domínio das paixões, não da liberdade, afirma B. Espinosa.
A capacidade de estar só, libertada de paixões, sem que o outro tenha que estar ausente, antes pelo contrário um outro objeto de amor, possível por momentos de silencio no seu espaço como afirma Montaigne “devemos reservar um aposento só nosso, completamente livre, onde possamos estabelecer nossa verdadeira liberdade, nossa principal e saudável solidão condição de lucidez e não de fuga do mundo”. Referimos como exemplo Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes cada um por si, escuta música, olha o mar, pintam e desenham, eles param o tempo, tornando o momento eterno, encontro no saber estar consigo mesmo, encontro propicio à intimidade, assim como o brincar, pintar, para amar.
Aqui o amor não é uma punição como afirma Marguerite Yourcenar, em que muitas vezes o amor é uma punição. Afirma Yourcenar “ somos punidos por não termos sido suficientemente fortes para permanecermos sós”.