Os traumas e as suas repercussões no percurso da vida
Por verificarmos que os impactos de situações traumáticas ocorridas no nosso percurso existencial tomam proporções dramáticas na qualidade de vida, julgamos erradamente que a sua origem só surge em acontecimentos extremos. Por exemplo, na infância, o trauma nem sempre vem de algo grave; vem sobretudo da forma como a criança viveu uma experiência e se sentiu sozinha ou desamparada na ocorrência.
O trauma não é o que aconteceu, mas sim o que ficou por dentro. Ele não está apenas no acontecimento, mas na ausência de proteção, escuta ou apoio emocional naquele momento. Tal impossibilidade em se expressar sobre aquilo que sente — ou sente que não deve — faz com que o corpo e a mente guardem essa experiência como uma memória emocional. Mais tarde, isso pode surgir sob a forma de ansiedade, dificuldades no sono, problemas comportamentais, problemas fisiológicos, isolamento, medos intensos, perturbações da personalidade, as quais distorcem a comunicação com os outros, sobretudo com as pessoas significativas.
Contudo, deveremos ter presente que a ajuda pode surgir sempre, quer na infância, adolescência, juventude ou na idade adulta. Há programas interventivos que proporcionam apoio adequado, relações seguras, possibilidade de recuar no tempo a fim de sarar o trauma, desenvolver robustecimento para o enfrentamento das situações ocorridas ao longo da vida.
No gabinete psicológico são abordados os sinais que merecem atenção aprimorada, seja qual for o estádio de desenvolvimento, sinais esses que se manifestam por regressões no comportamento, irritabilidade persistente ou tristeza, dificuldades de separação, isolamento ou retraimento, queixas físicas sem causa médica, entre outros. A ajuda por parte do psicólogo assenta, antes de mais, num espaço pensado para a intervenção, capaz de facilitar a expressão, compreensão e integração do que ainda não se consegue expressar por palavras. O paciente sente que não está a ser avaliado, corrigido ou pressionado, não deverá ser forçado a uma mudança rápida, mas permitir que aquilo que está em sofrimento encontre forma, ritmo, sentido e uma capacidade na sua resolução, por uma relação de ajuda assente na compreensão, regulação emocional, confiança em si e nos outros.
Procurar acompanhamento psicológico é um gesto de cuidado profundo, seja criança, jovem ou adulto, com a relação consigo e com o outro, com o sublime e maravilhoso tempo de crescer.