Para uma teoria da compaixão emergente na psicologia com crianças e adolescentes capazes de humanizar o psicólogo, inaugurando uma inversão fundamental: a criança ou adolescente deixa de ser apenas objeto de cuidado para se tornar sujeito capaz de cuidar. Aqui o setting é arquitetura relacional, um habitat emocional co construído, capaz de ativar sistemas de afiliação e segurança, reduzir a hiper ativação do sistema de ameaça, contribuir para a minimização das frustrações relativas à idealização dos cuidadores
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A clínica com crianças e adolescentes que manifestam comportamentos disruptivos tem sido, historicamente, atravessada por uma tensão fundamental: entre a necessidade de conter, regular e corrigir, e a possibilidade de escutar, sustentar e transformar. Neste campo, a agressividade tem sido frequentemente entendida como défice – de controlo, de empatia, de internalização normativa. No entanto, uma outra leitura se impõe: a de que, tais manifestações não são falhas morais nem simples desregulações comportamentais, mas expressões em torno da ameaça, da precariedade relacional. Entretanto, Otto Kernberg (1984) afirma: “crianças e adolescentes manifestam desprezo permanente dos cuidadores, como condição de um contacto privilegiado e permanente com figuras idealizadas, uma fixação afetiva intensa e ambivalente às primeiras figuras de cuidado devido a uma idealização extrema, coexistindo com desvalorização ou desprezo pelas figuras reais em relação á qualidade da relação primaria que foram vividas, incapazes de preencher as necessidades daquele bebé”.
É neste contexto que proponho o conceito de teto sustentante, o qual não é uma técnica, nem um dispositivo protocolar. É um posicionamento clínico. Uma forma de presença que designa o modo como o psicólogo se oferece como estrutura relacional capaz de suportar a tempestade emocional sem a anular, sem a devolver, sem colapsar sob o seu impacto. Tal como um teto que não impede a existência da tempestade, mas que protege aqueles que se abrigam, o psicólogo não elimina o caos psíquico – torna-o habitável.
Esta habitabilidade constitui o núcleo da intervenção. Ao contrário de modelos centrados na correção do comportamento, o teto sustenta, opera por insistência na presença. A criança pode atacar, rejeitar, ignorar ou testar; o psicólogo permanece. Esta permanência não é passiva, mas estruturante: ela institui uma experiência inédita para a criança – a de um outro (psicólogo) que não retalia, não abandona, não se fragmenta. Um outro capaz de sobreviver aos caprichos dos elementos, da natureza, Natureza na sua vastidão omnipotente segundo a visão de Baruk Espinosa.
É nesta sobrevivência que se produz uma inflexão decisiva.
Num primeiro momento, a criança relaciona-se com o psicólogo como um qualquer outro objeto do seu mundo interno: objeto ameaçador, indiferente ou instrumental. Contudo, a medida que o teto se mantem – que a estrutura não cede – começa a emergir uma transformação subtil: o psicólogo deixa de ser apenas função e passa a ser percebido como presença sensível. Como alguém que suporta, sente, por vezes sofre tristeza, mas continua ali.
É neste ponto que se inaugura o movimento mais radical deste modelo: a emergência da compaixão da criança pelo psicólogo. A criança ou jovem torna-se capaz de sentir compaixão porque foi objeto de uma compaixão que não falhou.
Este fenómeno, raramente colocado no centro da teoria clínica, implica uma inversão profunda da lógica tradicional do cuidado. A criança, até então objeto de contenção, torna-se progressivamente sujeito capaz de cuidar. Não se trata de ensinar empatia como competência cognitiva, nem de impor normas relacionais, mas de permitir que, a partir da experiência vivida, surja na criança um impulso que brota do desejo de cuidar do outro surgindo a compaixão, desta forma, não como instrução, mas como acontecimento.
Este acontecimento só é possível porque o espaço terapêutico deixa de ser meramente um setting técnico, clínico e se transforma num habitáculo a dois. Um construto, onde a relação não é simétrica, mas ontologicamente partilhada. O habitáculo não elimina a assimetria psicólogo / criança, mas introduz uma dimensão de copresença: ambos habitam o mesmo abrigo, ambos expostos à mesma tempestade, ainda que em posições distintas. Neste sentido, o teto sustentante não é apenas uma função de contenção – é uma arquitetura relacional.
Tal arquitetura possui características especificas: 1) é resistente sem ser rígida. 2) é permeável sem ser invasiva. 3) suporta o conflito sem se desorganizar. 4) permite a reparação sem exigir submissão. 5) a criança intuitivamente se vê capaz de sentir compaixão, de acudir ao outro, de ser bálsamo à tristeza do outro.
Vai surgindo a internalização não apenas da segurança, mas uma forma de relação. Aprende que o outro pode ser afetado sem desaparecer, pode ser molestado sem retaliar, pode ser alvo de agressão sem se tornar agressor. Esta experiência inaugura a possibilidade de uma ética relacional primaria: cuidar daquele que cuida.
A agressividade, neste enquadramento, deixa de ser vista como algo a eliminar e passa a ser compreendida como um movimento defensivo perante a impossibilidade de confiar. A criança ao encontrar um teto que não falha, a necessidade dessa defesa diminui. Não por imposição externa, mas por transformação interna do campo relacional.
O teto sustentante não regula diretamente o comportamento. Ele transforma o terreno onde o comportamento emerge. O modelo implica uma deslocação na posição do psicólogo. Deixa de ser apenas interprete, regulador ou facilitador, para se tornar objeto vivo da experiência da criança. O psicólogo sente, é afetado, suporta e que precisamente por isso, pode ser alvo de investimento afetivo genuíno.
Quando a criança se torna capaz de compaixão por aquele que a sustenta, algo fundamental se inscreve: Surge o reconhecimento do outro como sujeito. É nesse reconhecimento que se inaugura simultaneamente o reconhecimento de si. O teto sustenta não pretende formar comportamentos adequados (adequado versus desacuados segundo B. Espinosa), sob o teto criamos condições para o surgimento de uma humanidade partilhada, lugar do saudável pensamento critico, lugar incapaz de dissipar a tempestade, mas capaz de tornar possível permanecer dentro da poderosa tempestade juntos.
Espinosa, B. (1677). Ethica More Geométrico Demonstrata. Tradução do latim por Diogo Pires Aurélio com revisão de Joana Nunes. Lisboa: Relógio D`Água Editores.
Kernberg, O. F. (1984). Severe personality disorders: Psychotherapeutic strategies. New Haven: Yale University Press.