Arte-terapia e as suas vicissitudes
A instabilidade, o revés e a adversidade no campo da arte-terapia (AT) assentam na necessidade que muitos praticantes destas expressões “artísticas” engendram com o objectivo de se promoverem perante o largo espectro das intervenções terapêuticas, bem como em interesses financeiros, num terreno fértil e apelativo junto dos clientes.
A ambiguidade do termo assenta na palavra arte, uma vez que, nas intervenções, o que se diz ao paciente é que não se trata de virtuosismo artístico; a sessão não consta de aprendizagens artísticas, mas sim de projectar o material latente, expor no papel ou noutro suporte o que vai no pensamento, ou deixar sair, com a maior espontaneidade, as necessidades expressivas do momento.
Pensamos que faria mais sentido apelidar estas práticas de “expressão plástica” do que de arte-terapia. Alguns autores convencionaram designar por AT as expressões assentes no desenho ou na pintura, se bem que há quem chame também de AT às expressões musicais, à dança, às expressões corporais, aos fantoches, ao tabuleiro de areia, entre outras, o que, mais uma vez, não passa de equívocos ao nível conceptual, a juntar a outros.
Defendemos que a denominada AT não passa de uma técnica, tal como outras provenientes da Gestalt, das técnicas teatrais, do movimento ou da música, as quais são aplicadas nos mais variados modelos terapêuticos. A AT é uma técnica expressiva que poderá ser aplicada pelo psicólogo, seja ele do modelo dinâmico, cognitivo-comportamental, sistémico, humanista/existencial, etc. Porquê o psicólogo? Porque, como técnica, só faz sentido quando aplicada dentro de um modelo teórico consistente por parte de um profissional habilitado, o qual, para além de ter conhecimento dos múltiplos modelos, especializando-se num deles quando tal se justifique, poderá integrar a técnica denominada de AT.
Tratar a AT como um “modelo” terapêutico independente nada mais é do que uma construção artificial, aplicada muitas vezes por terapeutas ou psicoterapeutas sem bases consistentes, sem sustentação científica, criada por sociedades e cursos livres com interesses predominantemente financeiros.
É o domínio do modelo em que o psicólogo se especializou que constitui a base fundamental. Quando estejam reunidas as condições, o psicólogo pode convidar o paciente a expressar-se com tintas, lápis, canetas de feltro, etc., sendo apenas um pré-requisito que o psicólogo tenha formação nestas técnicas expressivas, podendo designá-las como técnica de expressão plástica (TEP).
Em conclusão, a AT não constitui um modelo psicoterapêutico autónomo, mas sim uma técnica, como tantas outras de intervenção, passível de ser utilizada dentro de diferentes referências teóricas da psicologia, desde que haja coerência conceptual, objectivos clínicos definidos e respaldo científico. As competências ensinadas em cursos, formações ou certificações de sociedades científicas ficam muito aquém do currículo referente à formação de um psicólogo. Neste caso, trata-se apenas da invenção de um conceito ou construto difuso e inconsistente, constituindo, muitas vezes, as próprias entidades formadoras uma seita mercantilista.
Assim, a AT, que denominamos técnica de expressão plástica, deve ser aplicada exclusivamente por psicólogos, como técnica alicerçada em modelos psicoterapêuticos já reconhecidos e de aplicação vasta, respeitando os princípios éticos, científicos e legais que regem a psicologia.