A Criança em Construçāo
Três tempos para compreender, acompanhar e pensar o desenvolvimento infantil
Introdução ao meu método de trabalho
A criança não cresce apenas porque o tempo passa. Cresce na relação com os outros, principalmente os cuidadores, através das experiências que vive, das perguntas que formula, dos conflitos que enfrenta e das possibilidades que encontra para descobrir quem é.
O meu trabalho como psicólogo e psicoterapeuta com estas convicções sobre as etapas do desenvolvimento, organiza-se a partir de uma proposta de acompanhamento em três planos do desenvolvimento, que correspondem a diferentes formas de a criança experimentar o mundo, relacionar-se com os outros e construir o pensamento.
Não se trata de estabelecer fronteiras rígidas entre idades. Cada criança tem o seu ritmo, a sua sensibilidade e a sua história. As idades são antes referências para compreender diferentes momentos de maturação e diferentes possibilidades de intervenção.
A questão central permanece a mesma: ajudar a criança a compreender aquilo que vive, desenvolver pensamento crítico sem perder a capacidade de confiar nos seus valores (ter convicções) e construir progressivamente uma identidade própria capaz de a defender de múltiplos fenómenos de uma possível intrusividade maligna.
Primeiro plano – vai do nascimento aos 5 anos: quando a relação é o primeiro pensamento
Nos primeiros anos, a criança ainda não dispõe dos instrumentos verbais e reflexivos que mais tarde utilizará para compreender a sua experiência.
O corpo, o gesto, o brincar, a expressão emocional e a relação com os cuidadores constituem formas fundamentais de comunicação. Por isso, nesta primeira etapa, o trabalho não se dirige apenas à criança. Envolve necessariamente os adultos que dela cuidam (pai ou mãe, juntamente com o psicólogo, interagem com a criança no setting), após a sessão, criança, o seu familiar e o psicólogo, dirigem-se a uma outra sala, onde a criança come uma bolacha e um iogurte, neste momento final o alimento e a linguagem, proporcionam diálogo entre todos.
É através da relação que a criança começa a organizar a experiência: segurança e insegurança, presença e ausência, confiança e medo, aproximação e afastamento.
Neste período, umas das tarefas fundamentais do psicólogo é ajudar a criar condições para que a criança possa encontrar no adulto um ambiente suficientemente estável onde aquilo que ainda não consegue compreender possa ser acolhido e progressivamente pensado.
É neste contexto que situo a minha ideia de teto sustentante: uma relação que protege sem aprisionar, que oferece contenção sem impedir a descoberta e que permite à criança atravessar as suas próprias tempestades (as birras) sem ficar sozinha perante elas.
Também aqui ganha importância a investigação de W. Thomas Boyce sobre as crianças mais sensíveis às condições do ambiente. A sensibilidade não deve ser confundida com fragilidade. Uma criança particularmente sensível pode sofrer muito mais perante um ambiente adverso, mas também pode florescer de forma extraordinária quando encontra relações suficientemente favoráveis.
Segundo plano – Dos 5 aos 8/9 anos, a idade dos filósofos
Neste período acontecem transformações particularmente interessantes: a criança começa progressivamente a querer saber o porquê, e os amigos ganham uma nova proeminência nas suas vidas. Perguntas sobre a morte, religião, justiça, amizade, o certo e o errado. Interroga os adultos e, muitas vezes, começa também a interrogá-los sobre as próprias respostas. É por isso que designo este período simbolicamente, como a idade dos filósofos, alcançando o auge, na idade dos 8 anos. Não significa que a criança seja um filósofo no sentido académico. Significa que começa a surgir com maior pujança uma capacidade fundamental: a capacidade de perguntar o sentido das coisas e mesmo de fundamentar, inclusivamente fazer reparos de ética dirigidos aos adultos.
O trabalho do psicólogo deverá acompanhar essa passagem sem apressar a criança para uma racionalização adulta. As perguntas feitas pela criança devem ser levadas a sério. Em vez de responder imediatamente, interessa muitas vezes perguntar: “O que pensas tu?” É neste espaço temporal (um hiato) que o pensamento crítico começa a nascer.
Mas pensamento crítico não significa ensinar a criança a desconfiar de tudo. Significa ajudá-la a pensar adequadamente, distinguir, argumentar, reconhecer o ponto de vista do outro e, simultaneamente, construir convicções próprias.
Terceiro plano – dos 8/9 aos 13/14 anos: a fase dos empreendimentos
A partir dos oito anos, a criança encontra-se progressivamente em condições de transformar uma ideia numa realização. As competências ganham uma nova visibilidade, ficando frustradas e desmotivadas quando os frutos dos seus empreendimentos não adquiriram a perfeição desejada.
O empreendimento pode ser muito diferente de criança para criança: construir alguma coisa, investigar um tema, escrever, desenhar, tocar um instrumento musical sem preocupações de virtuosismo, criar uma história, desenvolver um pequeno projeto, realizar uma experiência ou trabalhar sobre um assunto que verdadeiramente desperte a sua curiosidade. Seja qual for a opção dos meios escolhidos, todos são valiosos.
O essencial não é o produto final, mas a criança sentir-se bem com o que a sua criação produz. Aí o psicólogo deverá aproveitar os momentos da concretização do produto para trabalhar questões inerentes à psique da criança.
Psicólogo e criança trabalham juntos, mas não fazem a mesma coisa. O psicólogo acompanha, questiona, ajuda a organizar, introduz perspetivas e sustenta os momentos de dificuldade, trabalhando questões como as desistências e fazer leituras dos produtos a partir das opiniões da criança/jovem, analisando no momento e contexto oportuno o material manifesto e o latente. Assim, uma ideia passa a poder seguir um percurso indicado:
Imaginar – questionar – planear – experimentar – encontrar dificuldades – reformular e, por fim, concluir. Ambos, psicólogo e criança, deverão analisar o produto obtido como referido anteriormente. Esta experiência pode ter uma importância psicológica profunda. A criança descobre que pode transformar uma ideia em realidade sem precisar de controlar tudo nem de desistir perante as dificuldades, vivenciar espírito de equipa e companheirismo com o psicólogo ao mesmo tempo que se vai descobrindo pela análise do produto obtido e das vivências no setting terapêutico.
O que atravessa os três planos, ao longo das etapas do desenvolvimento?
Embora os três períodos tenham características diferentes, existe um fio condutor. Não procuro apenas diminuir um comportamento, corrigir uma dificuldade, trabalhar conflitos internos e externos ou fazer desaparecer um sintoma.
Procuro compreender a criança ou jovem na relação com o seu mundo. As dificuldades comportamentais, a oposição, os desafios, a ansiedade, depressões, medos, as dificuldades relacionais ou escolares, são importantes e devem ser trabalhadas. Mas o comportamento é também uma forma através da qual a criança comunica uma experiência que nem sempre consegue colocar em palavras.
É neste ponto que diferentes autores que orientam o meu pensamento clínico “dialogam” e me inspiram.
Boyce ajuda-nos a compreender a importância da sensibilidade individual perante o ambiente.
Maldiney permite pensar a maneira singular como cada criança é afetada pelos acontecimentos e encontra o mundo.
Girard ajuda a compreender a dimensão relacional do desejo, da imitação, da rivalidade e do conflito.
A estes contributos acrescento uma orientação dinâmica e existencial: compreender a criança não apenas pelo que ela faz, mas também pelo que vive, pelo que deseja, pelo que teme e pelas possibilidades que ainda não encontrou para se tornar autora da sua própria experiência.
Pensamento crítico e valores: dois conceitos que não devem ser separados
Uma criança precisa de pensar por si própria, uma garantia para se defender dos perigos. Mas também precisa de descobrir aquilo em que acredita. Pensamento crítico sem valores, pode transformar-se numa capacidade meramente instrumental de contestar. Valores sem pensamento crítico, podem transformar-se em certezas rígidas. O propósito é procurar o equilíbrio entre ambos: pensar criticamente sem perder a capacidade de acreditar; ter convicções sem deixar de questioná-las; construir uma identidade sem fechar a possibilidade de mudança. É neste equilíbrio que vejo uma parte essencial do desenvolvimento psicológico.
Em conclusão, é neste espaço que situo o meu trabalho como psicólogo/psicoterapeuta. Um espaço entre a dificuldade e a possibilidade. Entre aquilo que a criança vive e aquilo que ainda não consegue dizer. Entre a necessidade de ser acolhida e o desejo de se tornar autónoma.
Nem sempre sabemos imediatamente o que está por detrás de uma mudança de comportamento, de uma birra que se repete, de uma ansiedade, de uma oposição persistente ou de um silêncio que nos inquieta. Contudo, podemos escutar e acolher esses sinais. Se sente que alguma coisa mudou e não sabe ainda como compreendê-la, pode começar por não dar respostas apressadas, nada de rótulos que encerrem a criança ou jovem, começar pela escuta, uma presença silenciosa muitas vezes é o mais adequado. Por vezes, aquilo que mais precisa é simplesmente aquele encontro, naquele lugar onde possa começar a tornar-se quem é.
Esta metodologia “parida” da minha prática clínica, nasce do meu entendimento em que ajudar a criança a não reagir abruptamente ao que lhe acontece para poder pensar sobre aquilo que lhe acontece na realidade, é um passo valioso para o seu crescimento global. Esta criação surge do meu percurso de vida, dos autores que estimo, dos entendimentos obtidos junto das crianças e jovens ao longo desta caminhada, a qual nos possibilitou entender como é sublime, descobrirmos com a maior liberdade e responsabilidade, quem podemos vir a ser.