O desejo do outro
Porque é tão difiícil relacionarmo-nos quando desejamos tanto ser amados?
Neste blogue olhando a conjetura atual, torna-se oportuno abordar fenómenos como o abandono, dissonâncias relativas ao desejo do outro, dependências relacionais, receio no envolvimento, ambiguidades nas opções a tomar, como o estar com a pessoa errada. Outras questões poderão ser equacionadas como uma solidão dolorosa mesmo tendo em conta a proliferação de meios de comunicação digital (aplicações de encontros) e a elevada abundância de pessoas disponíveis.
Nas abordagens ligadas ao abandono, é comum surgirem queixas no sentido em que um parceiro deixa de responder, enquanto o outro não consegue parar de pensar nos motivos de tal abandono. As problemáticas mais recorrentes nos consultórios são os receios de envolvimento com a pessoa errada, a perda de interesse em alguém que investe demasiado na relação, persistências em sair de numa relação errada apesar de ser tóxica, dificuldades em estar só. Perante tais reações surge-nos a seguinte pergunta: O que acontece ao desejo, intimidade e à identidade quando o outro se tornou simultaneamente tão acessível e tão descartável desaparecendo abruptamente sem deixar rasto? Fenómeno esse que coloquialmente se denomina ghosting.
Necessidades muitas vezes obsessivas que gostem de nós, para sabermos quem somos, o desejo em querer o outro, mas “paradoxalmente” quando ele se aproxima, dá-se a fuga, todos estes comportamentos são temas caros à pratica do psicólogo: apego, medo de abandono, dependência, evitamento, ansiedade relacional, procura compulsiva de validação e outros receios ligados à perda do amor, em que quanto mais se investe mais ele foge, ao mesmo tempo que necessitamos do outro para confirmar aquilo que somos. Autores como Bauman abordam o fenómeno do “amor líquido”, uma ideia de que as relações são facilmente substituíveis, vínculos frágeis, o medo de ficar preso (o outro descartável). Por sua vez Illouz, abordando a nossa atualidade, foca-se no peso dos “mercados de oferta e procura”, as aplicações e redes sociais.
As escolhas aparentemente infinitas e a lógica de consumo que entram vertiginosamente na vida amorosa, adensa tais fenómenos. Turkle alerta-nos para a ambiguidade de estarmos mais conectados e, simultaneamente, menos disponíveis para o encontro, surgindo um terreno propício ao ghosting, mensagens, respostas demoradas, relações mantidas por ecrã e a dificuldade de suportar o silêncio.
No espaço terapêutico, uma “oficina” em que cuidamos de nós, espaço do pensamento adequado, do discernir, de nos questionarmo-nos, tentamos encontrar respostas, entendimentos, soluções, como exemplo: talvez o problema não esteja apenas em saber porque é que o outro desapareceu. Talvez esteja também em suportar o espaço que ficou. Porque entre a presença e a ausência existe um lugar difícil: aquele em que ainda não sabemos o que o outro significa para nós. Eu acredito nesse hiato, ou seja, o intervalo que, por vezes, começamos a descobrir quem somos e surgir insight que tanto nos ajudam a avançar, a crescer, a proporcionar potência.
Espinosa fale-nos de desejo, potência, afetos, encontros capazes de aumentar a nossa capacidade de existir, alertando também para aqueles encontros com pessoas que tanto podem aumentar como diminuir essa capacidade de existência.
Necessitamos de encarar fenómenos complexos como: desejamos o outro. Tememos o outro. Posicionamo-nos de forma a ser vítimas do outro. Precisamos do outro. Vitimizamo-nos do outro. Manipulamos ou somos manipulados pelo outro… por vezes, é precisamente dessa tensão que nasce a dificuldade de estar com ele. Talvez a relação comece quando conseguimos permanecer nesse intervalo sem fugir imediatamente dele, emoções e racionalizações devem andar de “mão dada”, desta forma será viável canalizar situações sem distorções, gerenciar emoções, tomar decisões conscientes, lucidas, discernirmos em relação ao nosso posicionamento.
Existe uma dicotomia praticamente inerente à nossa condição humana – desejamos profundamente amar e ser amados, mas simultaneamente produzimos movimentos que repelem, afastam ou tornam difícil a presença do outro. Edgar Morin permite justamente não resolver esta contradição de forma simplista: os contrários podem coexistir e participar do mesmo fenómeno. Desejamos a presença do outro e, ao mesmo tempo, tememos aquilo que a sua presença exige de nós.
Queremos ser escolhidos, mas nem sempre conseguimos suportar ser vistos. Procuramos proximidade, mas podemos criar distância. Desejamos intimidade e, quando ela se aproxima, algo em nós recusa.
Não se trata necessariamente de incoerência. A vida humana é feita destas tensões. Como nos ensina o pensamento complexo de Edgar Morin, aquilo que parece contraditório pode pertencer no mesmo movimento: aproximamo-nos do outro e defendemo-nos dele.
Talvez amar seja também aprender a permanecer algum tempo nesse lugar difícil, onde o desejo de estar com o outro, encontra o medo de perder a nossa liberdade. Entre querer o outro e conseguir estar com ele existe um espaço a que chamo de hiato. Talvez seja nesse hiato ainda sem resposta – que se inicia a possibilidade de uma relação. A complexidade nos permite pensar fenómenos em que forças aparentemente contraditórias participam simultaneamente de uma mesma realidade.